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Marujada de São Benedito

 

Marujada de São Benedito

MARUJADA DE SÃO BENEDITO, JÓIA CULTURAL DE BRAGANÇA
Prof. M.Sc. Dário Benedito Rodrigues Nonato da Silva, historiador

Fundada em 03 de setembro de 1798, por iniciativa de escravos da Vila de Bragança, a Irmandade do Glorioso São Benedito (e conseqüentemente a Marujada) e toda a Festividade estão intimamente ligadas às principais tradições religiosas e culturais do povo bragantino. Tanto que em todos os lares a devoção a São Benedito começou a se firmar como sua maior. No início do século XX aconteceu o processo de embranquecimento, pela entrada de brancos ao seu quadro de irmãos. Teve como documentos principais os Compromissos, próprios das antigas irmandades religiosas. E seus rituais divergem das variações existentes no Brasil, com nomes como Fandango, Barca, Chegança de Marujos. Não podendo ser dissociada do aspecto sagrado e devocional, mas fazendo parte dele, existe uma delimitação do espaço sagrado (com missa, novena e procissão) e do profano (com a dança, cavalhada, leilão, almoço) num sistema de representações bastante peculiar. Os atos religiosos eram realizados pelos padres da Diocese de Bragança. É a principal contribuição religiosa, histórica e folclórica do Nordeste paraense. E agora é patrimônio cultural, artístico, histórico e turístico do Estado do Pará.

Esmolação

Conjunto de atos religiosos realizado por três comitivas de esmoleiros que percorrem as regiões dos Campos, Colônias e Praias, circunvizinhas a Bragança e outros municípios, angariando esmolas e ofertas para a Festividade. É, em muitos casos, a única presença religiosa nas localidades mais distantes da sede do Município. Cada comitiva de esmoleiros trajando opas, leva uma imagem de São Benedito, instrumentos musicais, bandeiras e executam um conjunto de canções orantes em latim, ladainhas e folias de homenagem a São Benedito, de acordo com um calendário de visitas nas casas de devotos, que pagam suas promessas hospedando e alimentando os esmoleiros.

Hierarquia – Comando das Marujas

A Marujada tem uma hierarquia que demarca significativamente os espaços entre homens e mulheres, enaltecendo a figura feminina da maruja como mais importante em todos os eventos da Festividade. A principal autoridade da Marujada é a Capitoa, de cargo e função vitalícia, que disciplina e comanda as demais marujas, numa inversão social própria do período e bastante peculiar nos cultos afro-brasileiros de resistência à escravidão e submissão das mulheres. Existem ainda outros cargos como Vice-capitoa, Capitão e Vice-capitão.
As mulheres são as figurantes principais da Marujada e desde o dia de Natal – vestidas de azul, para o Menino Jesus – e no Dia de São Benedito – com traje oficial em vermelho – impostam seus chapéus turbantes de penas brancas, aba dourada, pequenas flores vermelhas e enfeites dourados ao redor, terminando com fitas coloridas. 

Vestidos do Menino Jesus de São Benedito

Como uma das heranças de tradição colonial que remonta ao barroco do final do século XVII e início do século XIX, as imagens eram vestidas e ornadas com os mais valiosos tecidos e roupas. Para a imagem do Menino Jesus, carregado em um burel por São Benedito vestido com hábito franciscano, desde muitos anos, são confeccionados vestidos, como pagamento de promessas, dos mais variados modelos e valores. Um grande conjunto deles é exposto à visitação dos devotos na Igreja de São Benedito em Bragança.

Cavalhada

Tem como tema principal a influência cristã, um dos eventos da Festividade de São Benedito, lembrando o combate entre cristãos e mouros nas batalhas medievais por territórios sagrados. É composta apenas por cavaleiros e suas montarias, que disputam argolinhas nas cores azul e vermelha. Vence quem conseguir alcançar o maior número delas.

Danças da Marujada

As danças executadas por marujos e marujas compõem uma parte do ritual, como forma de agradecimento ao Santo por graças alcançadas. 

a)    Roda: dança que inicia e termina todo o ritual da Marujada, como forma de comemoração e agradecimento, apenas com as marujas em círculo, tendo ao centro, a Capitoa e a Vice-capitoa. É o ritual coreográfico de dança que inicia e termina todo o ritual maior da dança, como conjunto. A roda reflete e revive de forma expressiva a origem da festa, pois, nela, constituída em círculo apenas por marujas, pedem licença simbolicamente aos presentes e as autoridades para dar início a dança, assim como há quase dois séculos os escravos pediam permissão aos seus senhores para dançar de casa em casa, segundo a tradição. A roda também é executada na alvorada do dia 18 de dezembro e no encerramento da festa.

b)   Retumbão: com o ritmo do lundu de origem afro-brasileira, dançado em dois casais, sendo a mais importante dança do ritual. Chorado, com o mesmo ritmo lundu em um tom musical abaixo do retumbão, dançado em par, onde os marujos iniciam o ritual tirando uma maruja pra dançar, por ordem de hierarquia. segundo ritual da dança, onde se já se contempla a figura (presença) do marujo como a de principal agente já que o capitão e vice-capitão iniciam a coreografia e “chamam” suas parceiras por hierarquia, Capitoa e Vice-capitoa, respectivamente. A presença masculina ressurge a primeiro plano, já que é condição necessária para seu início, sendo encerrado pelos mesmos casais que deram início à dança. Segundo Armando Bordallo da Silva (1981), as mulheres sobressaem-se melhor que homens nesta dança. A maruja para exibir sua agilidade,  costuma a um descuido do cavalheiro metê-lo debaixo do rodado de sua saia, quando isso acontece, dificilmente o dançarino volta ao salão.

c)    Chorado: Terceira representação, se constitui na verdade, numa variação do Retumbão, sendo dançado sob uma maior suavidade e lentidão dos passos e do tom, apenas por um casal, livremente escolhido e com alternância a cada final de dupla.

d)   Xote, como a principal expressão de dança característica da cidade de Bragança, se incorporou à Marujada por seu significado popular, sendo de origem européia. Uma das danças incorporadas à Marujada pelos aristocratas senhores de escravos. Acoplou-se à Marujada, com variações coreográficas. Teve origem, segundo Aurélio Buarque de Holanda, certamente na Hungria, e mobiliza a maioria dos presentes no barracão, quando da sua execução e início e de forma mais tensa alcança o frenesi com alteração rítmica com que é tocado ou dançado.

e)    Mazurca, de origem européia, foi introduzida nos salões pelos brancos, formada por pares de casais, livremente dispostos em fila. Mazurca: Trata-se de uma dança popular polonesa, originalmente cantada e dançada, em compasso ternário. A diferença da mazurca polonesa para a mazurca dançada pela Marujada está no ritmo. Na primeira o compasso é lento, na segunda é ritmado, por ser primitivo e de origem africana. A parte mais atraente da mazurca consiste nos seus movimentos ritmados de dois passos à frente e dois passos atrás, os quais são parecidos com o movimento das ondas do mar que avançam sobre a areia da praia e retornam ao mar. A medida que dançam, deixam transparecer a vibração de seus corpos. Na Mazurca, cavalheiros e damas com os braços envolvidos na cintura um do outro, formando um par saltitante, executam passos ligeiros, dois à frente e dois atrás. Nesse vai e vem, os pares volteiam o salão formando um círculo. A mazurca é comparada pelos próprios marujos como uma dança sensual, que expõe o sentimento, atingindo, inclusive um clímax, que se dá na aceleração do ritmo pelos tocadores.

f)     Valsa: também de origem européia, introduzida no ritual pelos brancos, composta por casais livremente dispostos. A valsa se incorporou à Marujada. Assumindo certa variação no que se refere à forma de dançar, se opõe ao ritmo frenético da Mazurca por tons calmos, em círculo, por pares deliberadamente formados ( homem -mulher, mulher-mulher). 

g)    Bagre (ou Contra-dança), uma das mais populares e prazerosa, tendo a frente um marcador que por casais, imita uma quadrilha, também não citada por nenhum outro autor. É a única em que percebemos a presença do presidente da Marujada. É composta por casais formados livremente. Dançada também em círculo, cada par tem que decorar o lugar e o parceiro ou parceira e não errar o compasso marcado pelo mestre da dança , que é o presidente da Marujada, que acalma os sacolejos e balanços de ida e volta ao centro do salão e volteios com a troca de pares, em seqüência. Só se dança a contradança, pelo menos é o que se percebe, em momentos festivos ou em ocasiões de lazer de seus membros, para espairecer dentro do conjunto de outras danças. O Bagre é pouco conhecido, e segundo Armando Bordallo, o ritmo é parecido com o ritmo de uma quadrilha, dançado em roda. Os pares formam círculo e o narrador comanda, determinando os passos. Os pares, vão até o centro do círculo e voltam à posição inicial, fazem trejeitos e coreografia ao som da voz do marcador.

h)    Arrasta-Pé: Nunca citado por nenhum autor que estudou as manifestações da Marujada. Outra dança, bastante difundida e não registrada em nenhuma obra. Configura-se sem anacronismo, como o nosso atual forró, dançado quase da mesma maneira popularmente conhecida nos salões de festas comuns.

Rituais

a)    Almoço: É resultado do pagamento de uma promessa que seu organizador, no caso juiz ou juíza, fizeram ao Santo e todo juiz ou juíza tem esse compromisso em oferecer o almoço para a Marujada, um no dia 25 e outro no dia 26 de dezembro. Percebe-se no ritual do almoço, que a figura da maruja é posta a segundo plano, quando da disposição das mesmas à mesa, sendo primeiro as autoridades, juizes ao centro da mesa, convidados e personalidades e nas laterais os marujos, configura-se, portanto, a presença de uma hierarquia. A situação já foi bastante diferente quando o serviço da cozinha-cardápio- era diferente para estas facções. Ser juiz ou juíza da Marujada, corresponde ter um certo poder aquisitivo, pois as despesas não são poucas, atualmente os juizes contribuem também com a festividade, sendo patrocinadores.

b)   Bendito: Reza em louvor a Deus e a São Benedito, em agradecimento pela alegria e fartura das refeições ou de qualquer outro ritual. É o canto “Benedictus”, em latim, tirado da tradição da Igreja Católica. É cantado nos “lanches” dos dias de alvorada e oferecido nos dias 18 de Dezembro, nos almoços dos dias 25 e 26 e no dia 1º de Janeiro, pela manhã.

c)    Leilão: Conforme a tradição, o “leilão do Santo”, realiza-se no dia 26 de Dezembro, no barracão da Marujada. Este acontecimento dentro da festividade corresponde a um cerimonial de trocas entre o promesseiro e São Benedito, em favor de graças alcançadas. Os devotos, durante o “serviço de esmolação”, comprometem-se em levar sua “esmola” para o leilão. Estas são levadas na véspera por alguns devotos, em muitas ocasiões, as “esmolas” chegam momentos antes do início do leilão, e às vezes até durante a sua realização. E estas apresentam uma diversidade muito grande, por exemplo: são leiloados desde cachos de pitomba até animais de porte como garrotes, porcos, cabras, etc. A clientela do “leilão do Santo” é formada por pessoas dos mais diversos níveis sociais. Atualmente a Paróquia executa e organiza o leilão, existe uma diretoria que cuida desta parte, porém antigamente o leilão ficava a critério da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança. 

d)   Cavalhada: De acordo com a tradição, a Cavalhada é um jogo que rememora a luta entre cristãos e mouros. Quando  o auto popular, entre cavalheiros, chegou a Bragança, já foi incompleto. Algumas características que permaneceram foram as disputas das argolinhas. Antigamente na Cavalhada, existia apenas uma corrida sem competição, com a participação de cavalheiros, onde inclusive a maioria pertencia ao interior, com o passar do tempo, o número de participantes aumentou, principalmente, se pode perceber a participação em maior número das pessoas da cidade e de outros lugares, atualmente a diretoria da Irmandade, através de patrocínios, angaria prêmios para o primeiro colocado. Os prêmios variam. Muitas das vezes, o prêmio é designado ao próprio cavalo. Na Cavalhada, cavalos e cavaleiros desfilam em saudação às autoridades, depois voltam à posição inicial, em desabalada carreira, saem às duplas, uma após outra, a seguir, novamente, aos pares, partem os cavaleiros abraçados até o fim. Terminada esta primeira fase da exibição, dá-se início ao jogo propriamente. Em velozes arrancadas, os cavaleiros levando na mão direita uma pequena lança de madeira, disputam uns após outros; quem consegue enfiar na lança o maior número de argolar. A Cavalhada realiza-se no dia 25 de Dezembro pela parte da tarde, na área próxima ao Aeroporto.

e)    Arraial: Antigamente, percebia-se a presença de parques no arraial, atualmente deu-se lugar para apresentação de shows, com músicos da terra, denominada de noite cultural e feiras de artesanato, que comercializa produtos artesanais. Também encontram-se barracas com vendas de bebidas, refrigerantes, há também pipoqueiros, barracas de sorvetes, venda de comidas caseiras e jogos clandestinos.

f)     Procissão: É na procissão que acontece o clímax da festa inteira. É nela que se vê de maneira corpórea a expressão da fé em honra a São Benedito por uma graça alcançada. Mesmo ocorrendo a cisão entre Irmandade e Prelazia (1947), na procissão, naquele momento tudo é esquecido, as antigas brigas, as divergências, todos estes personagens se unem para relembrar se auto afirmar como espaço de reprodução social e comemoração. Atualmente a procissão congrega a maioria da população bragantina e se constitui na maior representação de fé em Bragança. É maior que a procissão do Círio de Nazaré, em nossa cidade, e a extensão do seu percurso obedece ao itinerário proposto após 1988, que modificou o antigo cortejo. A procissão se estendia a uma quadra a mais da Alameda Leandro Ribeiro, no bairro da Aldeia, na Travessa Aureliano Coelho, interrompida com a interseção do prédio do Instituto Santa Teresinha. A procissão é iniciada pelo cruciferário (o que carrega a cruz), membro da Irmandade, do Santíssimo Sacramento e pelas enormes filas de marujos e marujas nas laterais, entremeadas de mais de seis estandartes em tons vermelho e branco com a insígnia de São Benedito e o menino Jesus, levado por marujos e marujas escolhidos. As filas de marujos e marujas são estabelecidas a fim de que se distribua melhor o espaço físico das ruas simétricas e estreitas de Bragança, auxiliada pelas organizações policiais, além de representar as estruturas que dominam o cenário da festa como padres, religiosos, Capitoa, Vice-capioa, juízes, autoridades, políticos. Na procissão observa-se a necessidade de se tocar ou até de se carregar o andar, beijar a fita de São Benedito, pagar promessa e agradecer ao Santo pela graça alcançada. A ordem da procissão é a seguinte:

– Cruciferário, Estandartes, Filas de marujos e marujas (maioria absoluta), Carros som, Autoridades, Andor e Povo em geral.

Instrumentos musicais

– Rabeca, Banjo, Tambor, Reco e Pandeiro.

Indumentária 

Ainda com relação ao traje, as marujas usam uma blusa branco, toda pregueado e rendada e a saia, vermelha ou azul com ramagens nessas cores. A tiracolo, cingem uma fita vermelha ou azul, conforme a cor da saia e no peito ostentam uma rosa vermelha ou azul. Na cabeça ostentam um chapéu todo emplumado e cheio de fitas coloridas e no pescoço trazem colares coloridos e dourados com medalhas.
A parte mais vistosa dessa indumentária é o chapéu cuja base era feito de feltro, coco ou cartola. Os de fabrico moderno são de carnaúba, palhinha ou mesmo papelão. Seja qual for o material empregado na estrutura básica do chapéu, ele é forrado na parte interna e externa. A aba com papel dourado. Em torno formando um ou mais cordões em semicírculo, presos nas extremidades onde são colocadas voltas ou alças de casquilho dourado, prateado ou colorido. Entre as alças, por cima das voltas, são também colocados espelhinhos quadrados ou redondos.
No alto, plumas e penas brancas, formam um penacho. Da aba, na parte posterior do chapéu, descem ao longo da costa da maruja, numerosas fitas. O maior número ou largura de fitas, embora não indicando hierarquia era reservado às mais antigas.
Os homens vestem calças e camisas brancas, usam chapéu de palha e carnaúba, revestido de pano com a aba virada e fixa em um dos lados com uma flor de papel, artificial em plástico vermelho ou azul, de acordo com a saia da maruja. No braço esquerdo, amarram uma fita, com um laço

 

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